terça-feira, 20 de setembro de 2016

terça-feira, 13 de setembro de 2016


Na semana passada, 08/09/16,  tivemos  a perda de nosso vizinho JOÃO PAULO SEIXAS CASANOVA, aposentado recentemente no Hospital de Clínicas e que poderia com mais intensidade cuidar e usufruir da companhia de sua neta, filhos esposa. Mas como Deus na sua sabedoria divina sempre é sábio no que faz, levou-o para junto Dele. As causas rápidas para sua morte decorreram da matéria que está na internet disponível e que poderá ser melhor pesquisada. O Material baixo retirei do site neste endereço: http://sbnr.org.br/mavs/

1. O que é uma malformação arteriovenosa  (MAV) ?

Uma das doenças mais difíceis de explicar para o paciente, na minha experiência de consultório, é a malformação arteriovenosa. Para entender esta doença, é necessário uma breve explicação básica sobre alguns termos, sem os quais é impossível o entendimento:

Artéria: vaso sanguíneo que leva sangue oxigenado do coração para os órgãos (rins, cérebro, fígado, etc.). É um vaso mais robusto, que tem uma parede muscular que permite que suporte uma pressão sanguínea maior.

Veia: vaso sanguíneo que leva o sangue usado (sem oxigênio) de volta para o coração. As veias são mais finas, não suportam grandes pressões sanguíneas como a pressão arterial.
Capilares: pequenos vasos sanguíneos, que ficam dentro dos tecidos, comunicando uma artéria com uma veia.  Uma das funções deles é evitar que o sangue arterial (com pressão alta) passe pra dentro do sangue venoso (pressão bem mais baixa).

Normalmente, a sequencia é artéria se ramificando em pequenas artérias, depois capilares, em seguida veias pequenas e veia maior.

No caso das malformações arteriovenosas, o que ocorre de anormal é uma comunicação direta entre uma artéria e uma veia, sem haver a formação de uma rede de capilares para amortecer. Desta forma, se esta comunicação anormal ocorrer, a veia vai estourar, pois não suportará muito tempo receber um sangue arterial, isto é, com maior pressão, a esta comunicação anormal, damos o nome de “fístula”, e dentro de uma MAV pode haver uma ou mais fístulas. 

2. E por que surgem as malformações arteriovenosas ?

As malformações arteriovenosas ( conhecidas como “MAV”) surgem provavelmente por um desvio do desenvolvimento normal dos vasos do sistema nervoso. A partir da sétima semana de vida embrionária, uma anomalia poderia fazer os pequenos capilares arteriais e venosos se coalescerem (se juntarem), formando uma comunicação direta entre as veias e as artérias.

Mesmo na literatura especializada, existem dúvidas sobre as verdadeiras causas do desvio do desenvolvimento vascular normal do embrião. 

3. Como é uma malformação arteriovenosa?

Uma MAV é composta basicamente de uma porção central (que chamamos de “nido”), uma ou várias artérias nutridoras e uma ou algumas veias de drenagem.

O nido é constituído por uma rede de canais vasculares, que não são totalmente artéria ou veia, sem interposição de capilares.  Como não há capilares, é fácil entender que o nido é o local onde as MAVs se rompem, visto que o sangue arterial passa diretamente para o lado venoso. O nido fica, na maioria das vezes, dentro do cérebro, e o tecido cerebral em volta geralmente é atrofiado e com sinais de hemorragias antigas, mesmo que o paciente nunca tenha apresentado sinais clínicos de sangramento.

4. Quais os sintomas de um paciente com malformação arteriovenosa?

As MAVs geralmente são clinicamente silenciosas até o sintoma inicial, que pode ser hemorragia, crise convulsiva ou déficits neurológicos.

Clinicamente, podem se manifestar como dores de cabeça (cefaléia), crises convulsivas (ataques epilépticos) ou perda de força em um dos lados do corpo. Alguns pacientes podem apresentar sintomas conforme o local do cérebro onde as MAVs se localizam, como por exemplo, perda de visão, nas MAVs próximas às áreas da visão ,  ou déficit motor, nas MAVs próximas às áreas motoras do cérebro. 

5. Como se faz o diagnóstico de uma malformação arteriovenosa?

Inicialmente temos que ter a suspeita clínica de ter ocorrido uma hemorragia cerebral para, posteriormente, submetermos o paciente a exames complementares, na seguinte ordem:

- Tomografia do crânio: pode identificar hemorragia cerebral. Quando isto ocorre em um paciente jovem, levanta a suspeita de que a causa da hemorragia poça ser uma MAV.

- Ressonância do encéfalo: este exame é fundamental para o estudo e diagnóstico de uma MAV. Mostra não só a lesão, mas pode também mostrar aneurismas associados, e mesmo sinais de hemorragia recente ou antiga, que são essenciais na decisão do tratamento.

- Angiografia cerebral: é o exame mais importante, além de definir o nido da MAV, vai avaliar a hemodinâmica da malformação, ou seja, se há sinais de perigo para uma hemorragia, como:

fístulas arteriovenosas de alto fluxo presença de aneurismas arteriais ou venosos estreitamentos na drenagem venosa 

6. Quais as complicações de uma malformação arteriovenosa?

As artérias da MAV tem uma circulação muito rápida, assim, é comum que elas seja dilatadas, grossas, podendo levar à hemorragia; e em cerca de 15% dos casos, podem se formar aneurismas, que também podem sangrar.

As veias de drenagem também sofrem, e podem surgir varizes (dilatações) venosas que podem sangrar.

Um fenômeno interessante é que, como existe uma passagem rápida de sangue arterial para a veia, o cérebro normal, vizinho à MAV, sofre um “roubo” de fluxo, podendo sofrer isquemia, o que pode causar déficit ou crise convulsiva. 

7. Como se trata uma malformação arteriovenosa?

Aqui cabe explicar que existem 2 grupos de malformações arteriovenosas:

a) aquelas que sangraram (ou seja, o paciente teve uma hemorragia, ou AVC hemorrágico devido à ruptura de uma MAV, aneurisma arterial ou venoso).

b) aquelas que se manifestam somente com sintomas que não sangramento: crises convulsivas, déficit neurológico ou dor de cabeça, etc.

Para o primeiro grupo, não há grande discordância entre os especialista sobre a necessidade de se tratar. E há três métodos de tratamento que são utilizados, às vezes isoladamente ou combinados entre si: cirurgia, embolização, ou radiocirurgia (explicaremos melhor abaixo).

Já para o grupo que não sangrou, não existe uma resposta precisa, pois nenhum trabalho científico, comparando estes pacientes, foi concluído. O estudo ARUBA poderá trazer resposta para isto (veja pergunta abaixo sobre isto). 

8.  Como é feito o tratamento clínico de uma malformação arteriovenosa?

Não existe um tratamento a base de medicamentos para tratar a malformação arteriovenosa. O que se trata são os sintomas decorrentes das MAVs:

Crises convulsivas: são tratadas com medicação anticonvulsivante, as quais vão ser diferentes conforme o tipo de crise.

Dores de cabeça (cefaleia): primeiro é preciso ter certeza de que a cefaleia não foi causada por uma hemorragia. No caso de ter sido uma dor sem relação com hemorragia, o tratamento é com analgésicos ou com medidas clínicas, de acordo com cada paciente. Nos pacientes onde ocorreu hemorragia, o tratamento deve ser individualizado, indo desde somente uma observação e repouso, até mesmo uma cirurgia de urgência. 

9. Tratamento por embolização, cirurgia ou radiocirurgia: quando está indicado cada um deles ou associação dos mesmos?

As malformações arteriovenosas são avaliadas de forma multidisciplinar, ou seja, por um grupo de médicos. Assim, neurologista, neurocirurgião, radioterapêuta e neurorradiologista terapêutico (intervencionista) avaliam o caso para decidir, junto com o paciente, o melhor tratamento. Normalmente, usamos uma escala chamada Spetzler-Martin modificada por Oliveira para nos orientar na decisão. Esta escala varia de 1 a 5 (do mais simples para o mais complexo). Em linhas gerais, nos casos das MAV’s que sangraram:

1. MAVs graus 1 e 2 devem ser tratadas por cirurgia aberta ou por embolização. A opção de radiocirurgia fica reservada para os pacientes que, após serem devidamente informados dos riscos, não aceitam os tratamentos citados previamente

2. MAVs grau 3A devem ser geralmente tratadas com cirurgia, sendo que a embolização é usada, em associação, para se diminuir o tamanho ou quando houver fatores de angioarquitetura que a justifique. Nestes casos, também se pode usar, após a embolização, a radiocirurgia.

3. MAVs grau 3B devem ser geralmente tratadas com radiocirurgia, sendo que a embolização é usada, em associação, quando houver fatores de angioarquitetura que a justifique.

4. MAVs grau 4 e 5 geralmente são tratadas com combinações de embolização e radiocirurgia, e muito raramente com cirurgia.  Em muitos casos, o tratamento não visa à cura, mas somente ao alívio de fenômeno de “roubo de fluxo”, para controle de edema (inchaço do cérebro) e redução de fístulas, isto é, para melhora dos sintomas ou diminuir o risco de hemorragia.

10. Como é feita  a embolização?

Tal tratamento deve ser feito somente por especialista em neurorradiologia terapêutica, especialmente treinado para tal.

O procedimento é feito numa sala especial (hemodinâmica) que conta com aparelhagem sofisticada de raios-X digital.  É feito sob anestesia geral, pois é necessário uma total imobilização da cabeça do paciente.

É realizada uma punção arterial na artéria da virilha (femoral), e um catéter (pequeno tubo) sobe pela artéria aorta até a base do pescoço. Através deste cateter, passa outro cateter menor (microcateter). Este vai navegar pela circulação intracraniana, até fazer um cateterismo “superseletivo”, ou seja, vai ser posicionado em artérias pequenas, dentro do nido da MAV.

São feitos vários controles com injeção de contraste, à base de iodo, dentro do microcateter, e quando o neurorradiologista visibiliza que o microcateter encontra-se alojado dentro do nido , injeta substâncias embolizantes (cola ou Onyx), que visam preencher o nido da MAV.

O objetivo principal é reduzir o fluxo de alta pressão das artérias dentro das veias, conforme explicado acima, podendo vir mesmo a ocluir o nido, levando, em alguns pacientes, à cura.

11. Quais os cuidados após a embolização?

O paciente geralmente é encaminhado para uma Unidade de Terapia Intensiva ou de cuidados semi-intensivos pra pernoite. Deve ser mantido de repouso, e com controle rigoroso da pressão arterial, que deve ser mantida rigorosamente em níveis um pouco abaixo do normal.

Geralmente é realizada uma tomografia de crânio no dia seguinte, e se nenhuma hemorragia ou edema for detectado, o paciente recebe alta da UTI, permanecendo no hospital por mais 1 ou 2 dias, para  depois receber alta hospitalar devendo continuar a tomar todos os medicamentos que já usava anteriormente (anticonvulsivantes especialmente), assim como ir às consultas de rotina com seu neurologista  de confiança. Consulta com o neurorradiologista terapêutico, que efetuou a embolização, deve ser marcada para a semana seguinte à alta hospitalar.

É importante frisar que a rotina acima se refere a pacientes que estão bem antes da embolização. Há casos que já estão internados há longo tempo devido a uma extensa hemorragia cerebral. Nestes casos, a internação pode ser bem mais longa, mesmo após a embolização. 

12. Quais as complicações da embolização?

Hemorragia: pode haver obliteração excessiva das veias, ocasionando sangramento. Nem todas as hemorragias precisam ser tratadas com cirurgia, somente as de grande volume.

Cefaleia: pode haver piora da dor de cabeça devido a edema (inchaço) do cérebro sem que tenha ocorrido hemorragia ou cefaleia por hemorragia, mesmo que pequena, pode ocorrer.

Déficit neurológico, como paralisias, perda visual, perda de fala, devido a oclusão de pequenas artérias ou pequena hemorragia, podem ocorrer. 

13. Por que podem ser necessárias várias sessões de embolização? Não dá pra resolver de uma vez só?

A grande maioria dos serviços de neurorradiologia no mundo fazem as embolizações de forma fracionada (divididas em várias sessões), pelo fato de ocorrer uma menor taxa de complicações. Existem trabalhos que mostram que, em casos selecionados, é possível se tratar somente com uma sessão, mas isto é uma exceção. 

14. E aqueles pacientes que tem malformação arteriovenosa que nunca apresentaram hemorragia (sangramento), o que deve ser feito?

Há um estudo chamado ARUBA (sigla em inglês para Estudo das MAVs que não Sangraram) cujo objetivo é de se tentar estabelecer se vale ou não a pena se tratar uma MAV que nunca sangrou. Este estudo foi interrompido em maio deste ano, pois os resultados preliminares mostraram que a taxa de complicações foi mais alta nos pacientes tratados cirurgicamente ou com qualquer modalidade de tratamento ou combinação deles, do que nos pacientes tratados somente clinicamente (tratamento somente dos sintomas como convulsão ou dor de cabeça). Fica em aberto o comportamento destes grupos no seguimento a longo termo (10-20 anos), no intuito de se determinar os riscos de sangramento e sequelas no grupo tratado cirurgicamente e no grupo apenas com tratamento clínico, de forma que as conclusões finais ainda não foram divulgadas.

Nossa opinião é de que esta resposta deve ser vista caso a caso, isto é, a conduta deve ser individualizada.  Nenhum paciente é igual ao outro. A angiografia cerebral ajuda muito a responder a questão se devemos tratar ou não um paciente que nunca sangrou.

Há casos em que existem algumas anormalidades que sugerem que é altíssimo o risco de hemorragias (exemplo: fístulas de fluxo sanguíneo extremamente alto desaguando em uma veia que está entupida parcialmente). “Nestes casos, é provável que que se indique tratamento.

Agradeço à colaboração do Dr. Evandro César de Souza – Neurocirurgião / Radioterapêuta do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que revisou o texto e propôs valiosas alterações.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016


07 de setembro de 2016 | N° 18628 
MARTHA MEDEIROS
Aquarius


Ando desconfiada da minha capacidade de avaliar obras cinematográficas, pois a mais recente estreia do único ídolo que tenho na vida, Woody Allen, não me arrebatou como eu esperava. Fui preparada para gostar, mas devo ser uma das raras pessoas a ter achado Café Society razoável, nada além disso. Diante da minha inesperada decepção, considerei que o problema era eu e insisti: entrei numa sala de cinema para assistir a Aquarius preparada de novo para gostar. Mas o inesperado aconteceu novamente: gostar foi pouco. Saí completamente arrebatada e comovida.

Por onde começar? Talvez enaltecendo a interpretação incrível de Sonia Braga. Ela está perfeita no hiper-realismo que o diretor Kleber Mendonça Filho impõe como meio de contar sua história: somos voyeurs de cenas que não parecem ter sido escritas e ensaiadas, elas simplesmente existem como existe a nossa vida, exatamente igual.

Aquarius mostra a maneira como Clara, uma mulher viúva, com três filhos adultos e que passou por um câncer de mama, reage à insistência de uma construtora para que ela venda o apartamento onde viveu quando jovem, depois com o marido e as crianças, até a solidão madura e bem resolvida de hoje. Ela é a única moradora de um velho prédio em frente ao mar, e não vê motivo para sair dali, mesmo que todos os seus vizinhos já tenham cedido e se mudado.

Aquarius fala sobre integridade. Sobre a dificuldade de abrir mão daquilo que nos constitui, do nosso edifício interno, onde abrigamos nossos valores, mesmo que eles pareçam desatualizados. Clara nos encanta, mas sua teimosia nos confunde: por que ela não vende logo o apê e se livra das incomodações? Porque, mais do que um apartamento, ele é a fortaleza que resguarda o caráter de sua dona. Mais do que um imóvel, é a extensão de seu corpo. A resistência dela não é teimosia. É dignidade concreta.

Hoje em dia, quase ninguém mais percebe nossos alicerces, aquilo que nos sustenta emocionalmente. No início do filme, uma jovem vai entrevistar Clara, que é expert em música, colecionadora de vinis, mulher de sensibilidade apurada. Dias depois, quando Clara lê no jornal o título que escolheram para a matéria, desilude-se um pouco mais: as pessoas nem ao menos nos escutam. Não quando nossa verdade não dá audiência, não gera lucro.

Somos os últimos sobreviventes de uma era em estado terminal. O analógico e o digital quase não dialogam mais, e a emoção tenta prevalecer sobre a razão, mas até quando? Clara sabe que há outros cânceres que nos corroem e que também deixam cicatrizes – a ganância, entre eles. Mas se ela venceu um, vai tentar vencer todos

sábado, 13 de agosto de 2016

sábado, 23 de julho de 2016



23 de julho de 2016 | N° 18589 
MARTHA MEDEIROS

O que fazer da vida

“O que você vai fazer da sua vida?” é, antes de uma pergunta, um julgamento sumário, uma crítica

Não tinha nem 10 anos de idade e era invadida por uma excitação boa a cada vez que alguém me perguntava o que eu queria ser quando crescesse. Yeah! Estava confirmado que eu iria mesmo crescer, não era apenas uma hipótese fantasiosa. Eu então respondia: quero ser aeromoça! Se me acusassem de estar com a cabeça nas nuvens, eu aterrissava: então quero ser chacrete! Não importava se o desejo se cumpriria, eu simplesmente idealizava um futuro associado a coisas de que eu gostava, logo, me imaginava cantora, guitarrista (passava os dias ouvindo Suzi Quatro), balconista de supermercado (nas brincadeiras, sempre escolhia atender no caixa), tenista (o esporte da família), psicóloga.

Mentira, eu nem sabia o que fazia uma psicóloga. Só tinha certeza de que jamais seria médica de nenê. Queria me livrar do universo infantil e entrar logo no mundo adulto, que me parecia muito mais divertido.

Até o dia que tive que encarar o vestibular sem ter a mínima ideia de qual curso escolher. Acabei optando pela Publicidade porque uma amiga iria fazer também. Já que eu gostava muito de arte, de criatividade, de escrever, quem sabe não dava pé? Deu. E ninguém mais perguntou o que eu queria ser quando crescesse porque, afinal, eu havia crescido. E crescia junto a minha angústia, pois agora a pergunta era diferente: o que você vai fazer da sua vida?

Esta é uma questão que não abre os portais da imaginação, não induz ao sonho, ao contrário, procura nos enquadrar em algo que ofereça um firme suporte existencial. “O que você vai fazer da sua vida?” é, antes de uma pergunta, um julgamento sumário, uma crítica: o que você vai fazer da sua vida além de ficar perambulando pelas noites de sábado, além de programar feriados em Garopaba, além de namorar, além de fazer estágio não remunerado, além de juntar dólares para viajar, além de passar as tardes trancafiada no quarto ouvindo música, além de ficar com a cara enterrada em livros de poesia? 

Nada disso significava fazer alguma coisa da vida, ao menos não da vida que os outros esperavam que você tivesse, e você também esperaria, se soubesse lidar com assunto tão complexo. Não sabendo, tocou em frente, porque quem aguarda uma resposta absoluta não faz nada.

Então você trabalhou, casou, teve filhos, trabalhou, separou, casou de novo, trabalhou, viajou, voltou, trabalhou, envelheceu, trabalhou, viajou, voltou, trabalhou e o final ainda está em aberto.

O que você faz da sua vida? A mesma coisa que todos, provavelmente. Ocupa o tempo enquanto ainda se diverte sonhando com o que quer ser quando crescer.



23 de julho de 2016 | N° 18589 
CARPINEJAR

Cadê a coxinha?

Passei na lancheria da escola para matar a saudade dos pecados de infância. Iria pedir um enroladinho. Já salivava ao imaginar a mordida na massinha. Aproveitaria os minutos antes de minha palestra em colégio na Capital para engordar e ressuscitar os sabores da meninice.

O barzinho parecia idêntico ao de minha época de estudante, com jeitão de trailer e a tampa da janela levantada. Mas não tinha enroladinho, este irmão menor do cachorro-quente.

O tio – todos os atendentes sempre serão tios para mim, não importa a minha idade – demorou a entender o que era enroladinho. Procurando me contentar, ofereceu um hossomaki. Juro que a minha audição tossiu de volta as palavras. Não esperava Tóquio em Porto Alegre, tanto que conferi o logotipo dos uniformes ao redor para me certificar de que não se tratava de um pesadelo.

– O quê?  – Sim, é o que mais sai no recreio – ele explicou. – Tá brincando, né?

– Não, os alunos têm preferência pelos rolinhos finos, quer experimentar? Ainda oferecemos temaki, kappamaki, tekkamaki e uramaki.

Não desejava comida japonesa às 10h da manhã. Qual o destino dos lanches perigosos e gordurosos das escolas? O que aconteceu com o rissoles? Onde foi parar o folhado? Cadê a irresistível coxinha?

Suava frio com o excesso de saúde na infância. Os dedos ágeis e aflitos no guardanapo terminaram trocados por pauzinhos? A mostarda e o catchup perderam sua realeza para o shoyu e o wasabi?

Ninguém mais mastigava pastelina com guaraná? Agora era suco verde e tapioca?

Que medo dessas turmas nutri, que desconhecem o poderio doce das balas Xaxá e 7 Belo. Será que os alunos pedem bolo integral de banana em vez de nega maluca?

Que receio dessa geração fitness que não experimenta o proibido, que come no lanche o mesmo que come no almoço e na janta e que não separa o mundo doméstico da casa do selvagem universo escolar.

Só o que faltava não mentir aos pais. Para a família, eu não relatava os feitos gastronômicos. Preservava a privacidade da gula. Fingia que adorava a merenda, um sanduíche insosso de ricota, e devorava um largo e maravilhoso pastel de carne, com o caroço do ovo saltando na pele dourada.

Amadureci porque sempre cultivei os meus segredos.

sábado, 2 de julho de 2016



02 de julho de 2016 | N° 18571 
MARTHA MEDEIROS

Mulheres e palavras surradas


Estar consigo mesma é companhia suficiente. Uma mulher sem homem tem mais valor do que uma mulher com um homem babaca, covarde, pequeno

Estamos em plena revolução feminista parte 2. Depois de inúmeras conquistas resultantes do surgimento da pílula anticoncepcional e da nossa entrada no mercado de trabalho, pausamos, recarregamos as baterias e agora voltamos à luta, rebatizada de empoderamento e direcionada, principalmente, à violência contra a mulher.

Acho empoderamento uma palavrinha detestável: é por causa da atração pelo poder que o Brasil está metido em encrenca e vive no atraso. Poder é um verbete obsoleto no meu dicionário. Troco empoderamento por conscientização e autoestima – autoestima também não é das melhores palavras, tornou-se um clichê, mas é do que precisamos.

Por que as mulheres são agredidas? Porque se envolvem com homens brutos, ignorantes, machistas: resposta simples. A resposta complexa vai um pouco além. Violência não deixa de ser um contato. O homem que bate no seu rosto, que queima seu braço, que chuta sua barriga e que puxa seu cabelo está enxergando você, está interagindo – da maneira mais cruel, mas está. Eis o perigo: a violência cria a ilusão de vínculo.

Para algumas, a indiferença pode ser muito mais atroz.

Por que ela não cai fora no primeiro tapa? Mulheres seguras não levam adiante uma relação agressiva, suspendem o ultimate fighting assim que ele começa e partem para outra história que seja realmente de amor, e não de carência, de dominação, de submissão. O primeiro tapa tem que ser sempre o último. Mas não é o que acontece: ele gera o segundo. Que gera o terceiro. Que gera todos os outros até a situação ficar insustentável. Decorre um longo tempo até chegar ao ponto do “não aguento mais”. Por que se aguentou tanto antes?

Dependemos do olhar do outro. Queremos ser admiradas, amadas, desejadas. Mas isso não deve valer para o olhar perverso que nos vê como um objeto onde descarregar frustrações. O cara não se suporta e desconta em você – é justo isso? E você segura a onda porque acha que o empurrão dele também é uma espécie de toque. Ele, através da pancadaria, está se relacionando com seu corpo e reconhecendo sua existência. A ausência do olhar dele – e do ataque dele – a transformaria em nada.

É por isso que aquela palavrinha surrada (ela também) tem que ser reforçada: autoestima. Não precisamos temer a solidão. Estar consigo mesma é companhia suficiente. Uma mulher sem homem tem mais valor do que uma mulher com um homem babaca, covarde, pequeno. Nenhuma intimidação é romântica. Sofrimentos emocionais são inevitáveis, mas ter o corpo submetido à violência física não dá poema, não dá filme, não dá nenhuma canção bonita. Tem que dar cadeia, apenas isso.

A grande revolução feminista passa pela consciência de que a solidão não é humilhante, a renúncia à nossa integridade é que é.